Não, não estou sendo narcisista! "Eu sou um gato" é o título de um livro que estou lendo.
"Wagahai wa neko de aru" é o título original do livro "Eu sou um gato", escrito por Soseki Natsume e publicado pela Editora Estação Liberdade. Já pelo título em japonês pode-se ter uma idéia de como a obra foi escrita. Em japonês há várias formas de se dizer “eu”, porém Soseki optou por “wagahai”, a qual só era usada por políticos, militares e soava um tanto arrogante. Expressão apropriada, pois o felino se sente pertencente a uma raça superior e chega, até certo ponto, a desprezar os humanos. “Quanto mais observo os humanos com os quais convivo sob o mesmo teto, tanto mais me vejo obrigado a concluir que se tratam de seres egoístas. (…) Shiro, a gata branca que mora na casa do outro lado da rua e por quem sinto profundo respeito, comenta sempre que não há neste mundo criatura mais impiedosa do que o ser humano.”
O narrador é um gato, que após sofrer perambulando pelas ruas, é acolhido por Chinno Kushami, um professor mal-humorado e cuja falta de perspectiva é assombrosa. O gato é debochado, sarcástico e traça um perfil da sociedade intelectual japonesa na Era Meiji (1868-1912).
E o felino não poupa as críticas que, na verdade, é uma crítica a toda sociedade japonesa da época. “De estômago frágil, a tez de sua pele é levemente amarelecida, inelástica e sem viço. Apesar disso, é um glutão. Após ingerir grande porção de arroz, toma 14 Taka-diastase. Em seguida, abre um livro. Na segunda ou terceira página cai no sono, babando sobre ele. Essa é a rotina de meu amo todas as noites. Mesmo sendo um gato, há momentos em que pondero sobre as coisas. Não há nada mais simples do que a vida de um professor. Pudesse eu renascer na forma humana, desejaria ser um mestre. Se é possível dormir tanto nessa profissão, é sinal de que até mesmo um gato pode exercê-la. Apesar disso, meu amo diz que não há profissão mais árdua do que a de um docente, e costuma se queixar dela a todos os amigos que o visitam.”
Aqui vai o trecho inicial do livro, que tenho certza vai deixa-los com vontade de le-lo:
"Eu sou um gato. Ainda não tenho nome. Não faço a mínima idéia de onde nasci. Guardo apenas a lembrança de miar num local completamente sombrio, úmido e pegajoso. Deparei-me nesse lugar pela primeira vez com aquilo a que comumente se denomina criatura humana. Mais tarde, descobri que era um estudante- pensionista, a espécie considerada mais malévola entre todas essas criaturas. Contam que por vezes esses humanos denominados estudantes nos agarram à força para nos comer fritos. Na época, ignorando esse fato, não me senti intimidado. Experimentei apenas uma agradável sensação quando o humano me soergueu com gentileza, pondo-me sobre a palma da mão. Aconchegado nela, pela primeira vez na vida encarei o rosto de um desses seres. Preservo até hoje na memória a impressão desagradável daquele momento. Em primeiro lugar, o rosto, que deveria estar coberto de pêlos, revelava a lisura de uma lata de remédio. Em nenhum dos muitos de minha espécie com os quais mais tarde me deparei observei essa horrenda deformação física. Não apenas isso: bem no meio da face se destacava uma protuberância, de cujos orifícios saía fumaça, por vezes em profusão, que me sufocava e debilitava. Só recentemente descobri provir essa fumaça de algo que os humanos costumam fumar e a que denominam cigarro."
Deixo aqui esta dica de leitura. Mas aguardem, um dia ainda posto algo engraçado... hahaha.